Quem sou eu, de onde venho e para onde vou?

O meu amigo Bruno Monteiro pediu-me para escrever um texto, de uma página e meia, que respondesse a três simples perguntas: quem sou eu, de onde vim e para onde vou? Mas como posso saber quem sou, se não sei o que significa ser? É interessante pensar que não sei o que responder, mesmo depois de vinte e oito anos e meio de vida.

Sempre vivi no passado e no futuro por não saber o que dizer ao presente. É mais fácil sentir saudades daquilo que já não volta, ou estar ansioso com algo que pode nem sequer acontecer, do que estar no presente e limitar-me a ser. Cresci com o paradoxo de ter de viver de acordo com quem sou e de cumprir o propósito da minha existência, mesmo antes de descobrir que propósito é esse e sem ainda saber quem realmente sou.

À minha volta, toda a gente parece ter certezas de quem é, embora nunca ninguém se tenha perguntado, realmente. Caímos no erro de responder com coisas que gostamos ou que fazemos, mas isso não é aquilo que somos verdadeiramente.

Sou artista? Talvez romantize a ideia de ser considerado um. Mas será artista quem vive da arte ou quem se mata a tentar fazê-la? Fazer arte tem sido declarar guerra à crença de quem sou. Ainda nem percebi se a arte é uma expressão da minha identidade ou apenas consequência da tentativa de encontrá-la.

Sou uma data de questões e a própria resposta às mesmas. Sou desarrumado, mas numa desarrumação organizada. Sou violentamente inofensivo. Euforicamente ponderado. Concentro-me no ruído do caos e desconcentro-me no silêncio da ordem. Talvez eu seja resultado da harmonia dos opostos.

Poderia dedicar palavras deste texto às outras perguntas, mas as minhas tentativas de resposta continuam a ser sempre para esta que me faço há anos. “De onde vim?” Vim de versões de mim onde achava que tinha percebido quem era. “Para onde vou?” Tenho ido gananciosamente procurar-me, sem direção certa, desejando que apareçam respostas que matem este desejo mais cedo do que a própria morte me leve a mim.

Há uma certa arrogância em não ouvir o silêncio. Porque o silêncio é, muitas vezes, a resposta que andamos a evitar ouvir. Talvez a ausência de resposta seja um sinal de que a pergunta não tem de ser respondida, mas sim experienciada.

O facto de a minha identidade ter constantemente uma validade é sinal de que estou sempre a reinventar-me. É impossível encontrar um destino em mim quando estou constantemente a tornar-me. Se sou alguém em constante mudança, talvez não haja um eu fixo, há apenas pegadas de identidade que vão ficando, marcando o longo passeio no jardim da minha história.

Passei muito tempo a querer saber quem sou, quando, na verdade, aquilo que precisava de perguntar era simplesmente: “como me sinto?” Acredito que a minha alma está mais próxima daquilo que sinto do que daquilo que penso.

Talvez toda esta crise existencial seja apenas um problema de conceitos. Procurar quem somos seja o verdadeiro significado de ser e, quando nos conformamos com uma versão de nós, deixamos de ser, eventualmente. A única certeza que aceito sobre mim próprio é a de que nunca me conhecerei na totalidade e é nisso que tenho de encontrar paz. Da mesma forma que gosto de acreditar que o meu propósito é encontrar um, acredito que é exatamente no processo de não saber quem sou que me encontro.

Durante toda a vida, tive fome de saber quem sou, mas hoje, espero sinceramente que esse momento nunca chegue realmente. Porque, no dia em que souber, nada mais terei a descobrir sobre mim e, nesse momento, deixará de fazer sentido viver, nesse momento, limitar-me-ei a existir. E, para ser honesto, hoje é disso que tenho realmente medo.

Por isso, respondendo por fim à pergunta: Não sei quem sou. Mas, sinceramente, nunca me senti tão feliz em saber que não sei.