Toda a gente percebe de arte

Sempre que pergunto a alguém o que acha sobre algum artista ou sobre as suas criações, as opiniões surgem sem espaço para reflexão e, na maioria das vezes, cheias de certezas. Outras vezes são exageradamente demoradas, numa tentativa de ganhar tempo para encontrar palavras que sustentem uma ideia frágil que se tenta romantizar. No centro dessas opiniões está quase sempre o gosto e se "enche as medidas" de quem observa.

Esta forma de olhar para a arte transforma-a num teste de validação pessoal, numa necessidade constante de ter uma opinião pronta sobre aquilo que os olhos veem, mas que, no fim, não passa de uma observação. Não é desse ponto de vista que gosto de falar de arte, porque sinto que o seu propósito não vive aí.

A arte é, acima de tudo, uma linguagem, talvez a mais acessível de todas. Tal como acontece com as línguas, cada forma de arte pode ser vista como um dialeto. Está comprovado que aprender uma nova língua altera a forma como pensamos, expande-nos, obriga-nos a reorganizar ideias e a ver o mundo de outra forma. Tornamo-nos, inevitavelmente, mais complexos. Com a arte acontece o mesmo.

Quando dizemos que só gostamos de um tipo de arte, estamos a limitar-nos a um único dialeto. Estamos a recusar outras formas de expressão e a fechar portas a outras formas de ver o mundo. Podemos não nos identificar com todas, tal como não sentimos todas as línguas como maternas, mas há uma diferença entre não ser a nossa língua e não querer compreendê-la.

Curiosamente, esta limitação não acontece apenas em quem rejeita o que não entende. Também a encontro, muitas vezes, em pessoas com quem me cruzo e que falam sobre arte. Há uma espécie de aversão ao que é apreciado pela maioria das pessoas e, em contrapartida, um romantismo quase arrogante quando falam de obras mais "estranhas", incompreendidas pela maioria, muitas vezes por razões que elas próprias não conseguem explicar.

Se não conseguimos reconhecer profundidade no que é simples, talvez aquilo a que chamamos "complexidade" seja apenas uma forma mais sofisticada de dar nome àquilo que nos é confuso.

Compreender arte não é sobre ter uma opinião quando interagimos com ela, é sair desse momento com uma nova opinião sobre nós. É nesse ponto que a arte ganha valor. É semelhante a tentar compreender uma parte de nós que ainda não sabemos nomear ou, no melhor dos casos, não sabíamos que existia.

Cada peça de arte, quando o ego fica de fora, tem o poder de um espelho. À primeira vista, parece refletir a essência do artista, mas, se olharmos bem, reflete aquilo que até então tinha sido impossível de ver em nós. Como se a perspetiva que o artista mostra revelasse uma nova perceção de nós.

No fim, onde nasce o verdadeiro valor da arte? Será na própria arte, por ter a capacidade de pôr em causa quem lhe dá essa oportunidade, ou estará esse valor em quem a observa, na disponibilidade que tem para se questionar?

Talvez seja isso que nos falta, não aprender a criticar arte, mas aprender a deixar que ela nos ensine de que matéria somos feitos. Admirar arte não serve para percebermos o que estamos a ver, serve para percebermos quem somos quando a vemos.
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