Dou por mim a dar pela minha existência

A minha bisavó ensinou-me tudo o que sou. Através da poesia que escrevia desde que era pequena, mostrou-me que tudo na vida dá um poema. Incentivava-me a passar para o papel o que a mente grita, mas o coração cala. Dizia para escrever sobre tudo o que sinto, para que nada ficasse por sentir. Que escrever é a melhor forma que temos de nos desapegarmos das emoções que já não servem a alma ou, por outro lado, de honrar aquelas que queremos eternizar.

Ao contrário da escrita, sempre fui silenciosamente sentindo. Aprendi erradamente, dando demasiado peso ao que não o merecia e esquecendo-me de dar oportunidade ao que realmente pedia para ser sentido. Apesar de sentir muito, nunca soube que palavras escrever. Sou uma espécie de analfabeto linguístico que, poeticamente, sente. Talvez por isso ache mais interessante quem diz coisas certas por palavras erradas do que o contrário.

Dou por mim a dar pela minha existência, mas não sei se isso me deixa ansioso ou aliviado. Essa consciência aparece sempre para me apresentar uma versão de mim que ainda não tinha percebido que existia, e a ideia de não saber quem sou é complexa de aceitar. Por outro lado, descobrir partes de mim que ainda não sabia que existiam é o único caminho para, algum dia, me conhecer na totalidade.

Há muito tempo que já não cresço em altura, por isso não me resta alternativa senão fazê-lo para dentro. Acho que este texto é sobre esse paradoxo em que existo, sobre esta implosão que já não tem mais espaço para caber em mim, não me restando senão esvaziar-me no papel.

Enquanto escrevia este texto, apercebi-me de que a minha bisavó, em todas as conversas que tivemos sobre a arte de escrever, nunca me deu um papel e uma caneta para a mão. Acho que nunca me tentou ensinar realmente a escrever poesia. Acho que quis ensinar-me a sentir como um poeta, pois só assim o poema nasce.

Sempre senti uma necessidade inerente à minha existência de procurar respostas que justificassem o sentido de existir. Como se estivesse sempre à procura de poesia na vida, na esperança de que ela me dê certezas de que faz sentido estar aqui. É exatamente sobre isso, sobre ser mesmo sem saber bem porquê, que fala o poema de viver.

Ou talvez eu próprio seja um bonito poema que a minha querida bisavó escreveu.